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Jardim Keukenhof. Abre ao público somente durante dois meses na primavera enquanto dura a beleza das flores.(Holanda, maio de 2004)
Para a Loba com carinho.
Estarei fora mas deixo esta mensagem para desejar um belo final de semana.
Beijos
Existe um fenômeno transfronteiriço, transcultural e transcontinental que atinge todas as categorias de homens: maridos, namorados, amantes e “ficantes” de todas as idades. O fenômeno parte deles, mas nós somos as atingidas. Nós mulheres ficamos transparentes e mudas apesar de falarmos pelos cotovelos (como eles reclamam). O dito fenômeno ocorre em temporadas, em alguns casos nos finais de semana e o mais grave e contagioso ocorre de quatro em quatro anos: São as temporadas de futebol. Campeonatos mundiais, continentais, nacionais, estaduais, municipais, de fundo de quintais...uffa!!
O campeonato europeu começou na último sábado e terá três semanas de duração. Acho que essas três semanas serão meu período de provação para firmar minha independência emocional que eu tanto corro atrás.
Como brasileira até que gosto do “esporte nacional", assisto na TV e of course que eu sei que a bola é redonda. O que me dá nos nervos (de leve) nem é o jogo, mas os efeitos colaterais:
1. A prorrogação feita pelos programas de comentários com aqueles flashes que se repetem e repetem, sem falar nas reportagens com torcedores barulhentos....
2. Brasil, brasileira, futebol...eles associam tudo e pensam que todo brasileiro é comentarista “de berço” .
Não é tão mal assim? Tem mais um fenômeno.
3. Aquele homem que preparava o jantar e limpava a cozinha sumiu, não sei pra onde foi. Se parece muito com um que está ali grudado no sofá. Espero que ele retorne em três semanas ou desistirei de nossas férias no Brasil temendo que ele volte me pedindo uma cerveja cada vez que me vir de pé.
Credo!
Pra completar aquela camisa alaranjada (a cor da Holanda) dói na vista.
Rsrsrrs
PS.
O texto estava terminado quando os times (Russia e Portugal) voltam para o segundo tempo. Os portugueses católicos, quando entram em campo fazendo o sinal da cruz no gramado e dizem amém com a mão nos lábios. Essa imagem geralmente se vê por trás do jogador e quem não entende, fica à toa...
Esse rapaz que não me exergava minutos atrás vira pra mim e pergunta:
- Amor, porque eles comem a grama?
Rsrsrsrsr
Acabou meu mau humor!
O ócio pode sim ser criativo. Um dos meus passatempos agora tem sido a fotografia. Gosto de ver os detalhes das coisas e decidi fotografar alguns cantos da casa para decorar as paredes que ainda estão sem quadros. Aqui o tabuleiro de xadrez em close. Junho. Final de primavera. Geralmente temos tido dias de muito sol. Ontem por exemplo, tivemos um domingo ensolarado, mas hoje não, amanheceu cinza e só apartir do final da tarde o sol voltou a brilhar. Esse dia inicialmente cinzento, foi o dia marcado para a chegada de Willem ( ou como os amigos o chamavam: Pim), mas foi também o dia de sua despedida.
Era um rapaz bonito, olhos expressivos e um belo sorriso. Sei de suas traquinagens quando criança e das aventuras com os amigos, algumas de suas viagens ao México, Hawai, sua vitalidade e o hobby: scuba diving.
Era meio louco e sonhador: vendeu sua empresa, beijou a namorada e saiu - parece música de Chico Buarque! Deixou sua vida confortável e segura para trabalhar como voluntário na organização de ajuda humanitária Medicos sem Fronteiras. Sua volta estava marcada para hoje (14 de junho), mas voltou uma semana antes do combinado. Hoje, exatmente no dia previsto para sua volta o conheci.
Mas tudo o que sei sobre ele me foi contado pelos amigos presentes em sua cerimônia de chegada e despedida.
Foi meu primeiro funeral na Holanda. Durante a cerimônia na igreja, os amigos e parentes leram seus discursos de despedida seguidos de músicas que expressavam o modo de viver daquele sonhador. Mesmo entendendo quase nada de holandes, fiquei muito emocionada.
No cemitério, enquanto todos aguardavam ao longo da via até a sepultura, o cerimonial chamou amigos e parentes para conduzirem as coroas e arranjos de flores e formarem o cortejo. Inesperadamente uma das irmãs de Pim - nunca nos vimos antes de hoje - veio ate mim e me ofereceu um bouquet de flores para que eu entrasse no cortejo. Eu fiquei profundamento honrada por sua gentileza e em poder participar da despedida daquele ser humano especial.
O mais difícil momento de um funeral, acredito eu , é visualizar o caixão sendo baixado até a sepultura. Aquele foi um momento difícil porque se via seu belo sorriso, seu olhar expressivo, suas aventuras no mar, nas montanhas, nas praias e em casa com a familia. Toda sua vida contada naquela composição num mosaico de fotografias que cobria todo o caixão - foi ali que vi seu olhar, seu sorriso e suas aventuras submarinas. Um mosaico com suas fotos desde quando era um pequeno bebê até as últimas tiradas nas montanhas do Afeganistão, onde a intolerância e a insanidade tiraram sua vida e a de mais quatro pessoas.
Para ler mais sobre o que está ocorrendo no Afeganistão acesse o weblog do Pim www.kwint-ia.nl/weblog